16/01/2016 às 15h16min - Atualizada em 16/01/2016 às 15h16min

A Civilização do Couro

Por Laécio Barros Dias

Portal Corrente (foto: menelaueoshomens.wordpress.com)

            Conheci Zuvido ainda criança. Ele costumava frequentar a minha casa e já chegava pedindo café. Lembro-me do ronco de sua voz dizendo em alto e bom som: “Socorro tem café?” Trêmulo, quase não conseguia segurar a xícara. Repetia várias vezes o encher das xícaras, e entre um gole e outro de café conversava com meus pais sobre os mais variados assuntos. Eram fins dos anos oitenta.

        Zuvido era oleiro, fazedor de tijolo como se dizia. Ganhava o pão produzindo tijolo na olaria. Isso mesmo: a olaria. Havia apenas uma em toda a cidade e da qual se produzia todos os tijolos de que seus moradores precisavam. Até hoje o bairro é chamado de olaria, justa homenagem aos muitos oleiros que ali moravam e ainda moram e à região que já fora olaria também.

          Zuvido não exercera a profissão de oleiro desde sempre. Zuvido fora vaqueiro. Contava a meu pai as histórias de suas andanças pelos “gerais”, lugar para onde se levava o gado em períodos de estiagem. Os gerais eram longe, só se sabia isso daquele lugar quase místico no imaginário de quem nunca estivera lá e que só o conhecera pelas histórias dos vaqueiros. Mas não só Zuvido fora vaqueiro. Pedão, Vitô, Neguim, Simeão... todos vaqueiros. Zuvido falava de lugares longínquos, para onde se ia negociar o gado: Chapada de Natividade, Almas, Dianópolis (antigo São José do Duro), Carolina, Remanso, Pilão Arcado... Meses a fio tangendo rebanhos e negociando a preciosa mercadoria. Verdadeiros andarilhos do sertão e herdeiros de uma longa tradição.

             Está na raiz do Piauí a vaqueirice. A pecuária foi a principal atividade econômica do Piauí colonial e imperial, motor de sua colonização e meio de exploração que o invasor português encontrou para prear o nativo e escravizar o africano. Os “sertões de dentro” colonizados a partir da Casa da Torre da Bahia com os Dias D’Ávila e pelos bandeirantes (destaque para Jorge Velho e Mafrense) espalharam por estas paragens seus enormes rebanhos de gado vacum. “Limpavam a terra” para a colonização, limpavam as suas matas e delas retiravam suas gentes, lavando-a de sangue e retirando tudo que podia fornecer. Pastos bons para o gado, terras a perder de vista, escravos vindos d’áfricas ou feitos na própria terra. Estava montada a empresa colonial. Nascia o Piagohy enquanto unidade política pertencente ao vasto império luso.

            “Do gado só não se aproveita o berro”, diz o sábio ditado popular. Extrai-se quase tudo, restando do mesmo apenas o berro imitado no aboio. A carne fresca ou seca para fazer a farofa, as vísceras para a buchada, a fuçura – da qual se extrai o bofe, o leite para a coalhada, o queijo e o requeijão, o doce de leite. O esterco para o cultivo de plantas. O couro para a roupa, o gibão, o chapéu, a bota. Os móveis da casa, o tamborete, a cama, as dobradiças das portas e porteiras. Os arreios, as montarias e os chicotes para domar todos os bichos, inclusive o bicho homem. O chifre para levar a munição, para, na sua queima, espantar mal olhado. O sebo para o sabão, o asseio. O transporte de carga, o carro de boi.

             De algum modo estamos ligados a Zuvido, que se liga a Jorge Velho, que se liga à nossa matriz cultural. As histórias de Zuvido são nossas histórias também, foram os caminhos abertos por homens como ele que nos trouxeram até aqui. Valeu o boi!

 

Laécio Barros Dias é mestre em História do Brasil, Professor e Diretor do Campus Corrente do Instituto Federal do Piauí.

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