20/08/2017 às 11h53min - Atualizada em 20/08/2017 às 11h53min

Criação

Por Gabriela Aguiar

Portal Corrente

            A todo o momento ouvia vozes sussurrando em sua mente, algumas eram mansas, sensíveis, outras gritavam, tomavam. Porém já estava habituada a essa rotina e aprendera a selecionar de maneira categórica, de acordo com o seu humor e disposição, qual delas ouviria e expressaria em algum pedaço de papel.

            Ela considerava incrível aquela sensação, meio efusiva, meio perspicaz, de possuir tantos seres em sua cabeça. E não somente suas falas, mas seus temperamentos, corpos e emoções. E a variedade a permitia conhecer tantas pessoas diferentes ao mesmo tempo... Explorá-las para obter o seu melhor e o seu pior. Não raramente se misturava com seus personagens, doava-lhe um pouco das suas características, quando não absorvia as deles para si.

            Escrever era seu momento preferido, principalmente quando as pessoas exigiam para sair da sua mente, imploravam para serem descritas e terem as suas histórias, por mais lindas ou tristes que fossem repassadas. Algumas tinham uma urgência terrível, sua narrativa poderia ser elaborada em questão de minutos e com tanta intensidade absorta. Outras, eram mais pacientes, pediam mais tempo para serem expostas, queriam mais cautela, uma maneira trivial de repensar e moldar suas palavras.

            Poderia mesclar várias épocas diferentes em uma só, acrescentar toques surreais, criar um mundo, no qual seus personagens e sua imaginação ditariam as regras. E não importava se fossem de maneira tirânica ou não, cada planeta, cada história tinha seu diferencial. Deixando-se sempre levar pela emoção de cada um, comovendo-se com uns e enojando-se com outros.

            Ah! Mas sem dúvida o que mais exigia sua concentração era quando observava as pessoas reais, por um ângulo que nem elas ousariam inferir que tinham. Atentava principalmente para o olhar, as pessoas não tinham noção do quanto era fácil interpretá-las por meio deles e transpô-las em um papel, com alterações ou cruas, porém sem jamais modificar a essência. Proceder desse modo violava o existir, o ser que cada um compunha.

            E por fim, a parte mais árdua e mais simples, escolher as palavras certas para cada ocasião, para cada dever, para cada tentação. Ousar, continuar, retroceder, todos os verbos no infinitivo de uma mente inquieta para dar vida. E da sua maneira criar uma teoria cósmica intrínseca com o big-bang ou o Éden.

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