08/07/2017 às 11h07min - Atualizada em 08/07/2017 às 11h07min

Conto de olhos nublados e coração cego

Por Gabriela Aguiar

Portal Corrente
Gabriela Aguiar

Pegou o seu Machado de Assis. Ficou divagando sobre a vida enquanto passava os dedos vagarosamente sobre a capa. Abriu o livro na página que estava marcada, mas não conseguiu formar sequer uma palavra na sua cabeça. As letras pareciam estar todas embaralhadas. Olhava para o papel e não via a história, nem a mão, nem a luva.

Continuou com o livro aberto, entretanto já não tentava mais ler. Deixou que seus pensamentos lhe guiassem. Há muito queriam fazer isso. Uma lágrima caiu dos seus olhos. Não se preocupou em limpá-la, pois ninguém veria. Ela estava sozinha em casa.

Tinha a personalidade inquieta e sorriso fácil. Gostava bastante de conversar, mas hoje não queria que as palavras saíssem da sua boca, preferia guardá-las ou se pudesse preferia esquecê-las.

Fez o que jurara para si mesmo não fazer. Mas quem nunca? Quem nunca quebrou um juramento? Dissera para si mesmo que não se arrependera e que fora uma boa escolha. Entretanto, bem no fundo (talvez nem tão fundo assim), ela estava amargamente arrependida de não ter cumprido seu juramento.

 Lembrou-se de Cora Coralina: “coração é terra que ninguém vê”. O choro aumentou e as lágrimas ficaram incontidas. Seu coração estava doendo, pelo menos era o sinal de que possuía um. Mas e a outra pessoa? Sentiria algo? Lhe olharia de uma maneira diferente? Para falar a verdade, nem tinha mesmo certeza se a outra pessoa possuía um coração.

Enxugou as lágrimas que já lhe embaçavam a visão. Decidiu que seria mais forte. Voltar atrás numa decisão seria mais difícil do que quebrar um juramento? A resposta só viria com o tempo.

Respirou fundo e tentou lembrar-se de que pelo menos aprendera. Errara, mas aprendera. E isso (provavelmente) não se repetiria. Tinha a sua vida para cuidar. Estava quase alcançando sucesso profissional e ela sabia que iria além. Potencial nunca lhe fora escasso.

Na manhã seguinte o sol iria anunciar o novo dia e com ele novos planos...

Recebeu uma mensagem amiga, que lhe fez despertar do transe dos seus próprios sentimentos. Sentiu-se confortada. Como seu melhor amigo parecia sempre saber quando ela precisava?

Colocou um esboço de sorriso no rosto. O coração se acalmara. Pegou o livro novamente e voltou a ler de onde havia parado: “Mas esta cólera apaziguou-se, e o coração venceu o coração”.

 

Ah, Machado de Assis... Precisava mesmo ler isto agora! 

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