21/07/2021 às 10h49min - Atualizada em 21/07/2021 às 10h49min

Morre o jornalista Moacyr Andrade, aos 85 anos

Por Zózimo Tavares

Publicado originalmente em zozimotavares.com

Soube dele através de seu conterrâneo ilustre João Cláudio Moreno, nosso amigo comum. Até então, jamais ouvira falar em seu nome.

Em resumo, foi assim que o humorista o apresentou a mim, mais ou menos em meados dos anos 90, quando ainda morava no Rio de Janeiro:

“Ele é um grande jornalista e intelectual. Todo jornalista importante que conheço no Rio me diz: “Olhe, eu conheço um grande jornalista lá de sua terra”… E citava o nome dele, Moacyr Andrade.

Para você ter uma ideia, ele foi editor do “Caderno B” do Jornal do Brasil, nos áureos tempos do JB, e membro do Júri B, que escolhia o Disco do Ano. Sem dúvida, o mais rigoroso crítico de música. Chegou a ter mais 30 mil discos na casa dele, na Tijuca”.

Fuga em 64

E dizia mais, para aguçar meu interesse:

“O pai dele, seu Mércio Andrade, exportador de cera de carnaúba, era o homem mais rico de Piripiri. E, muito jovem ainda, o Moacyr tinha ideias avançadas sobre reforma agrária, essas coisas. Também tinha assinaturas de revistas de Cuba e não sei de onde mais.

Quando irrompeu o golpe de 64, a polícia e o Exército bateram em Piripiri para prender um bocado de gente. Prenderam o Tarciso Cruz, o Ronald de Freitas, que depois foi secretário-geral do PCdoB, e botaram atrás do Moacyr.

Seu Mércio pegou uma Rural, entregou ao Milton Vieira e botou o Moacyr dentro. Eles pegaram a estrada de piçarra e foram bater em Fortaleza.

Mas, por causa disso, por causa dessa fuga dele, seu Mércio foi preso. Ficou umas horas lá detido para dar conta do Moacyr e ele disse que não sabia.

Ora, seu Mércio era o homem mais rico da cidade, latifundiário, recatado, respeitado, que não tinha nada a ver com comunismo, mas acabou preso nessa devassa que fizeram lá em Piripiri.

De Fortaleza o Moacyr ganhou o mundo. Ninguém sabe pra onde ele foi. ”

O andarilho

De fato, daí para frente Moacyr Andrade tornou-se um andarilho, vagando pelo Brasil sem endereço fixo por muito tempo.

Trabalhou em vários jornais do Paraná, de Pernambuco, de São Paulo e em outros do Rio de Janeiro.

Só do Jornal do Brasil foi redator por mais de 30 anos. Foi colunista político e de esportes. Por último, era crítico de música popular.

Visita a Piripiri

Há uns dez anos, acompanhei João Cláudio em visita a Piripiri especialmente para conhecer o jornalista. A cidade vivia o fervor dos festejos de Nossa Senhora dos Remédios.

Ele estava na casa da família, no Centro. Uma casa bonita, na verdade um palacete, construído em 1946, com a riqueza da cera de carnaúba. A casa ainda pertence à família e estava ocupada por uma irmã.

Moacyr era filho de Mércio Andrade e Rosa Resende (Rosita) e irmão de Rita, Maria de Lourdes, Augusto César Andrade (ex-procurador-geral de Justiça do Piauí) e Maria Helena Andrade (juíza em Piripiri e residente na casa da família).

Entrevista

João Cláudio fez uma longa entrevista com Moacyr Andrade, ainda inédita.

Não sei se pelo aparato quase cinematográfico que foi armado em uma sala da casa ou por outro motivo que desconheço, o fato é que observei no veterano jornalista uma pessoa muito reservada. E cordial.

Daí para frente, João Cláudio ficou sempre me dando notícias dele, como, por exemplo, a da comemoração de seus 80 anos, no Rio, na companhia dos irmãos. “Foi todo mundo. A gente devia ter ido também”.

 

João Cláudio entrevista Moacyr Andrade, na casa onde nasceu, em Piripiri (2010)

A doença

Há poucos dias, o humorista me informou que Moacyr fora internado no Rio e que, no hospital, contraiu a Covid-19.

Lutou pela vida até domingo à noite (18/07), vindo a falecer às 23h30, aos 85 anos.

 

A despedida

Este o Moacyr Andrade do qual nos despedimos, com imenso pesar. Um piauiense grandioso e infelizmente pouco conhecido em sua terra.

Para sua irmã Maria Helena, ele teve uma vida plena: “Tenho certeza de que está em paz”.

João Cláudio me passou hoje esta mensagem, sobre o amigo Moacyr Andrade:

“Era um homem cheio de valores éticos. Era calado, reservado, muito culto, simples, bonito. Tinha uma cultura clássica enorme, mas não arrotava nenhum pedantismo cultural. Eu só consigo ver o Moacyr envolvo em luz”.

Que assim seja!

A história da Lapa

No final da década de 1990, a Prefeitura do Rio de Janeiro publicou uma coleção de livros intitulada “Cantos do Rio”, sobre os bairros mais emblemáticos da cidade.

Moacyr Andrade foi convidado a escrever sobre a Lapa. Em 76 páginas de “Lapa, alegres tópicos”, publicado em 1998, ele recompõe magistralmente, com história e poesia, todo o cenário da mais afamada zona boêmia do Rio.

Este livro, considerado hoje uma obra-prima, chegou a mim pelas mãos justamente de João Cláudio Moreno. Um dos mais belos textos que já li.

Eis a sinopse que a editora Relume fez para a obra, no seu lançamento:

Anos 20, bordel da Elvira. Zeca Patrocínio, Manuel Bandeira, Catulo da Paixão Cearense e Heitor Villa-Lobos em um concerto de violão brasileiro. No mesmo cenário, em outra noite, Di Cavalcanti, “cansado de aventuras amorosas e com a boca amarga de álcool”, se despede rumo à Semana de Arte Moderna. Assim Moacyr Andrade começa um passeio pelos alegres trópicos da Lapa e atravessa noitadas e cantorias em botequins e cabarés, com direito a uma parada no ateliê de Cândido Portinari. O figurino é o mesmo para todos os personagens: chapéu-do-chile, camisa de seda pura, gravata de tussot, sapatos de salto carrapeta e muitos anéis. O passeio só muda de rumo com a chegada dos marinheiros americanos da Segunda Guerra e suas vitrolas automáticas.

Num painel construído de um só e poderoso fôlego, Moacyr Andrade apresenta a vasta constelação de intelectuais, artistas, mulheres, malandros, cabarés e prostíbulos que transformaram a Lapa num grande mito. Daqueles tempos, praticamente nada ficou. Por isso, só nos resta perambular com Moacyr Andrade pelas mesas, camas e tramas e continuar crendo que um dia, na Lapa, existiu uma vida noturna e boêmia tão interessante como as de Montmartre, Pigalle ou Montparnasse, com a diferença de que nossos heróis se chamavam Camisa Preta, Mário Lago, Ceci, Noel Rosa, Madame Satã, Antônio Maria, Meia-Noite, Lucio Rangel, Carlos Lacerda, Wilson Batista e uma povoação de mulheres para agradar a todos os paladares.”

 

Capa do livro sobre a história da Lapa, de Moacyr Andrade.

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