08/03/2014 às 02h06min - Atualizada em 08/03/2014 às 02h06min

Conheça a história da criação do Dia Internacional da Mulher

Luta pelos direitos das mulheres marcaram o início do século passado

Ascom

Um incêndio em uma fábrica têxtil de Nova York,ocorrido em 1857, teria matado 130 operárias. Antes do episódio fatídico, tecelãs novaiorquinas realizaram uma marcha por otimização de suas condições detrabalho, diminuição da carga horária e igualdade de direitos em relação à mão-de-obra masculina. Uma mulher operária, nesta época, trabalhava por cerca de 16 horas diárias, com salários até 60% menores que os dos homens.Além disso, agressões físicas e sexuais não somente em casa, mas também nos ambientes de trabalho eram constantes.

Para o desfecho da marcha, há muitas versões, e uma delas é a de que as manifestantes teriam sido trancadas na fábrica pelos patrões, que atearam fogo no local, matando-as carbonizadas. O fim mais aceito, porém, é o de uma interrupção policial violenta da passeata, a fim de dispersar a multidão.

Esta versão do incêndio como incidente de origem do Dia Internacional da Mulher é, provavelmente, uma confusão com a tragédia da fábrica Triangle Shirtwaist Company, em 25 de março de 1911. O fogo matou mais de 150 mulheres, com idades entre 13 e 25 anos, na maioria imigrantes italianas e judias.

A falta de medidas de segurança do local - as portas teriam sido trancadas para evitar a saída das empregadas - foi apontada como o motivo do alto número de mortes. O episódio foi um marco na história do trabalho operário americano e está registrado no Fire Almanac ("Almanaque do Fogo"), publicado pela Agência Nacional de Proteção contra Incêndio dos Estados Unidos. No livro, não há qualquer referência ao tal incêndio de 1857. Vários protestos se seguiram nos 8 de março seguintes. Um dos mais notáveis - também reprimido pela polícia - ocorreu em 1908, quando 15 mil operárias protestaram por seus direitos, em prol da igualdade econômica e política no país.

No ano seguinte, o Partido Socialista dos EUA oficializou a data como sendo 28 de fevereiro, com um protesto que reuniu mais de 3 mil pessoas no centro de Nova York e culminou, em novembro de 1909, em uma longa greve têxtil que fechou quase 500 fábricas americanas.

Já em 1910, durante a Segunda Conferência Internacional das Mulheres Socialistas, na Dinamarca, a alemã Clara Zetkin propôs que uma data anual fosse usada não somente no âmbito dos Estados Unidos, mas mundialmente, para comemorar as greves americanas e homenagear mulheres de todo o mundo. A Conferência reunia 17 países diferentes e foi aprovada por mais de cem representantes dessas Nações.

O período da Primeira Guerra Mundial (1914-1918) marcou a eclosão de ainda mais protestos femininos em todo o mundo, porém a manifestação “Pão e Paz” foi uma das mais célebres que aconteceram nessa época. Aproximadamente 90 mil operárias russas de Petrogrado (atual São Petersburgo) protestaram contra más condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra, em 8 de março de 1917 (23 de fevereiro no calendário Juliano, adotado pela Rússia até então). A data, que ficou consagrada, somente foi oficializada como Dia Internacional da Mulher em 1921.

Ainda assim, esta não foi a definição final da data comemorativa e nem o fim para as lutas por igualdade: somente mais de 20 anos depois, em 1945, a Organização das Nações Unidas (ONU) assinou o primeiro acordo internacional que afirmava princípios de igualdade entre homens e mulheres.

Os anos 1960 foram apontados como marcos históricos de propagação e gênese do refinamento teórico do discurso feminista, a nível científico. A comemoração oficial do Ano Internacional da Mulher, aconteceu em 1975, mas somente em 1977 o "8 de março" foi reconhecido oficialmente pelas Nações Unidas como dia Internacional da Mulher.Desde então, esta data é momento de reflexão acerca das discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas pelas mulheres em diferentes países.

 

Lutas por direitos no Brasil e no Piauí

As manifestações Brasileiras em prol dos direitos da mulher surgiram em meio aos grupos anarquistas do início do século 20, que buscavam, assim como nos demais países, melhores condições sociais e de trabalho. A luta feminina ganhou força com o movimento das sufragistas, nas décadas de 1920 e 30, que conseguiram o direito ao voto em 1932, na Constituição promulgada por Getúlio Vargas.

A partir dos anos 1970, emergiram no país organizações que passaram a incluir na pauta das discussões a igualdade entre os gêneros, a sexualidade e a saúde da mulher. Em 1982, o movimento feminista brasileiro passou a manter um melhor diálogo com o Estado, com a criação do Conselho Estadual da Condição Feminina em São Paulo, e em 1985, apareceu a primeira Delegacia Especializada da Mulher.

Já no Piauí, a primeira Delegacia Especializada de Atenção à Mulher piauiense completa, em julho de 2014, 25 anos, e o primeiro registro histórico do feminismo no Piauí é uma publicação no Jornal O Dia, transcrita da revista Cláudia, coluna “A arte de ser mulher”, escrita pela jornalista Carmem da Silva. A seguir um trecho da matéria:

 ‘Você já deve ter ouvido falar na revolução das mulheres americanas. O que é que esta(s) querem afinal? Livrar-se dos trabalhos de casa? Dos homens? Dos filhos – Carmem da Silva explica tudo.

[...]

A 26 de agosto de 1970, os meios de comunicação divulgaram uma notícia que causou formidável impacto: as mulheres americanas estavam nas ruas. Em Nova York, Washington, Boston, Detroit e várias outras cidades dos Estados Unidos, classificaram uma massa de cartazes e clamores. Que mulheres? Estudantes? Operárias? Esposas de grevistas? [...] Mães de soldados? Viúvas de guerra? Nada disso, apenas mulheres. Esse era um dado comum e não a idade, raça, religião, classe social, situação cultural, profissional ou militar. Era na qualidade de mulheres que elas contestavam e reivindicavam. Desde o triunfo da campanha pelo voto feminino, há uns cinqüenta anos os Estados Unidos não viam espetáculo semelhante. O Ocidente pasmou: manifestações feministas a estas altura! O fato ganhou uma vasta publicidade, manchetes e um sem fim de comentários na imprensa mundial.’

(O Dia, 1971: 25/26 jul. p. 5)

 

Escrito por Julianny Nunes


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