23/08/2017 às 21h07min - Atualizada em 23/08/2017 às 21h07min

E-mails comprovam que órgãos haviam sido alertados do perigo na Serra da Capivara, onde segurança desarmado foi morto por caçador

Artigo escrito pelo fotógrafo André Pessoa para a Revista Rolling Stone relata que o ICMBio tinha conhecimento das situações de perigo aos quais os guardas florestais estavam expostos.

Por André Pessoa
Revista Rolling Stone

Edilson Aparecido da Costa Silva, o Nego (à esquerda), morreu após ser baleado por caçadores. João Leite Araújo Filho (segurando um tatu-bola resgatado), que alertou os órgãos responsáveis para o perigo a que os guardas estavam sendo submetidos, também foi baleado, mas não corre risco de morte.

O crime praticado por caçadores no Parque Nacional da Serra da Capivara, no sertão do Piauí, em 18 de agosto, e que resultou na morte do guarda-parque Edilson Aparecido da Costa Silva, de 49 anos, poderia ter sido evitado caso o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), em Brasília, tivesse dado a atenção necessária a uma série de mensagens enviadas ao presidente do órgão, Ricardo Soavinski. Além de assassinar Silva, que deixou esposa e sete filhos, os caçadores ilegais – em busca de animais ameaçados de extinção como o tatu-bola – balearam outros dois fiscais. Dois caçadores, conhecidos como Afonso e Netão (sobrenomes não divulgados), foram presos; outros dois, Gilson e Zezinho, estão foragidos.

O Parque Nacional da Serra da Capivara, localizado a cerca de 500 quilômetros da capital do Piauí, Teresina, constitui a área de maior concentração de sítios pré-históricos do continente americano e tem o título de Patrimônio Cultural da Humanidade - UNESCO.

Em mensagem enviada há alguns meses ao órgão ambiental, o guarda-parque João Leite Araújo Filho, que trabalha na Serra da Capivara desde a década de 1990 – e um dos baleados na ocasião –, fez um amplo relato da situação de perigo a que os fiscais estavam sujeitos. Tal perigo vinha das mudanças que estavam sendo realizadas em seus contratos de trabalho, principalmente a retirada do porte de armas e recolhimento dos coletes à prova de balas (os guardas são contratados da empresa de segurança Thor, de São Paulo). Araújo Filho explicou que antes eram 34 fiscais com porte de armas de fogo e que atualmente apenas quatro têm autorização para o uso delas. Esses quatro fiscais são atualmente acrescidos de outros 22 vigias desarmados, que pouco podem fazer para proteger o parque e suas próprias vidas. “Éramos até então a unidade [de conservação] mais bem protegida, mas com a atual configuração, as ações criminosas quadruplicaram. Há hoje dezenas de caçadores todos os dias dentro da unidade acabando com a fauna desse exclusivo bioma brasileiro. Sem contar a destruição do patrimônio histórico e cultural”, relatou.

 

Serra da Capivara - troca de emails

Serra da Capivara - troca de emails

 
Serra da Capivara - troca de emails

Serra da Capivara - troca de emails


Troca de e-mails entre o guarda-parque João Leite e o ICMBio comprova que o órgão sabia que os seguranças e o parque estavam em perigo

Até a manhã desta quarta, 23 de agosto, nenhum representante da empresa Thor havia chegado à região do Parque Nacional Serra da Capivara. Um dos guardas informou que apenas recebeu um telefona da empresa, no qual foi solicitado um atestado médico. A viúva de Adilson ainda não recebeu nenhum tipo de suporte da companhia, o que contradiz o comunicado divulgado pelo ICMBio (abaixo). A Polícia Federal não foi até o local para ajudar nas investigações, embora haja uma equipe de Brasília, do ICMBio, na região para averiguar o caso, segundo informou Melina Rangel, Chefe do Parque Nacional Serra da Capivara. Até as 18h desta terça, 22 de agosto, a única mudança efetiva desde a morte de Edilson Aparecido da Costa Silva era que os guardas não estavam mais ficando nas guaritas isoladas – o que significa que o local está ainda mais vulnerável aos caçadores.

No dia 28 de fevereiro de 2017, Araújo Filho escreveu ao presidente do ICMBio alertando sobre o perigo das alterações que viriam a ser aplicadas. Ricardo Soavinski tinha acabado de visitar a Serra da Capivara e garantido pessoalmente aos fiscais que nada iria mudar. No entanto, a promessa não estava sendo mantida. “Nossos contratos foram modificados, nossas armas foram tiradas, nossos salários reduzidos e amigos de trabalho que dedicaram suas vidas em defesa desse parque serão demitidos”, diz um trecho da mensagem.

Quem respondeu ao e-mail foi o chefe de gabinete da presidência do ICMBio, Wajdi Mishmish. No dia 22 de março, Mishmish escreveu: “...Considerando os ajustes de racionalização e otimização de serviços que passa [sic] todo o Governo Federal, foram necessários pequenos ajustes nos contratos, tendo sido praticamente mantido em termos quantitativos o mesmo número de funcionários contratados atualmente”, dizia parte do documento.

Diante da resposta, Araújo Filho voltou a escrever, dessa vez diretamente para Wajdi Mishmish. “A atitude tomada pelo ICMBio não só coloca em cheque a palavra do Sr. Presidente [do órgão] como a do presidente anterior (in memoriam) e ainda mais a palavra do excelentíssimo ministro do Meio Ambiente, Sr. Sarney Filho, pois os mesmos deram total apoio ao parque e aos guardas que na época passavam por severas dificuldades.”

Algumas semanas após assumir o Ministério do Meio Ambiente, em 2016, Sarney Filho visitou o Parque Nacional Serra da Capivara e se reuniu com a equipe dos guardas-parque garantindo, em público, que nada mudaria no regime de trabalho dos fiscais. Pelo contrário: na época, ele afirmou que as equipes seriam ampliadas e fortalecidas. A prática, porém, se mostrou muito diferente – além da diminuição das equipes, os guardas tiveram suas armas e coletes à prova de balas retirados, em um processo que contribuiu diretamente para a falta de segurança dos profissionais e, consequentemente, para a morte de Edilson Aparecido da Costa Silva.

Mais avisos
O guarda-parque João Leite Araújo Filho foi além e mostrou preocupação com a integridade da Serra da Capivara. “Com a destruição do equilíbrio ambiental, as pinturas rupestres serão destruídas por insetos como cupins e vespas, que constroem suas casas e galerias em cima das pinturas, destruindo esse riquíssimo registro... sem falar do desplacamento das rochas, provocado quando o caçador utiliza os sítios [arqueológicos] como abrigo. Desde o dia 1 de março os caçadores invadiram o parque.”

Ao finalizar essa mensagem, ele fez uma espécie de anúncio premonitório do que poderia acontecer. “Não posso desistir de lutar por um patrimônio cultural que pertence ao povo brasileiro e que eu aprendi a amar e a respeitar. Se o ICMBio não puder proteger eu vou fazê-lo ou morrer tentando”, escreveu. O aviso de uma tragédia se confirmou na última sexta-feira, 18 de agosto, quando os fiscais da Serra da Capivara encontraram caçadores na área do parque e foram alvejados.

Antes do crime, no dia 26 de junho passado, Araújo Filho voltou a escrever ao presidente do ICMBio, Ricardo Soavinski. A mensagem tinha um tom de desabafo, pois a decisão do órgão de retirada de coletes à prova de balas e de porte de armas havia acabado de ser confirmada. Ele encaminhou como anexo um vídeo com a música “Se um Dia Eu Deixar de Ser Vaqueiro”, e relatou: “Hoje, ouvindo a música, fiquei muito emocionado em fazer a comparação com o que autor fala com tanto amor: ‘Se um dia eu deixar de ser vaqueiro, vou chorar com a falta da boiada...’. Se um dia eu deixar de lutar pelo parque, vou chorar por ver esse patrimônio único ser destruído”.

No mesmo dia 26 de junho, aparentemente impactado com o teor da mensagem, Soavinski respondeu pela primeira vez diretamente a Araújo Filho, escrevendo: “Caros, vamos conversar a respeito!”. No entanto, nada aconteceu nas semanas seguintes, até o dia 5 de julho, quando o chefe de gabinete, Wajdi Mishmish, respondeu à mensagem de Araújo com cópia para Silvana Canuto Medeiros, Paulo Henrique Carneiro e para o próprio Soavinski: “Os esforços de ampliação das ações de fiscalização e proteção são preocupações diárias deste órgão, que diante dos recursos limitados tem buscado todos os meios para desenvolvê-las em todas as 324 unidades de conservação federais”.

Após o crime, que teve forte repercussão, o ICMBio e o próprio ministro do Meio Ambiente distribuíram comunicados à imprensa: “O Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade lamenta profundamente o falecimento de Edilson Aparecido da Costa Silva, vigia contratado da empresa Thor, que presta serviços no Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí. O ICMBio informa que acionou a Polícia Federal, que já está apurando o incidente juntamente com a Polícia Civil do Estado do Piauí. Tanto o ICMBio quanto a empresa Thor estão tomando providências no sentido de prestar apoio aos funcionários e suas famílias e estão colaborando com as autoridades policiais no esclarecimento dos fatos”.

Já o ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, publicou a seguinte nota: “Em meu nome e do Ministério do Meio Ambiente, manifesto o pesar pelo falecimento de Edilson Aparecido da Costa Silva, vigia do Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), morto por caçadores que atuavam no local. À família de Edilson e àquelas de seus dois colegas que foram feridos na mesma ocasião, envio minha solidariedade e dedico minhas preces. Desejo, ainda, expressar total repúdio à ação criminosa de quem atenta contra o meio ambiente, destruindo a natureza e, neste caso, vitimando quem trabalhava em sua defesa”.

Tragédias marcam a reserva ambiental

Em 2001, outro crime bárbaro em uma das guaritas do Parque Nacional Serra da Capivara chamou atenção para os problemas de segurança no local. O caçador Paulo de Jesus Souza matou com um tiro de espingarda sua própria irmã e funcionária do parque, Ivani de Souza Ramos. Após ser agredida a facão, no rosto e nos braços, ela levou um tiro pelas costas. Ivani trabalhava na reserva ambiental desde 1999 e já tinha sido ameaçada outras vezes pelo irmão, pois sempre denunciava as entradas ilegais dele na reserva para caçar.

Na época o crime abalou os moradores da pequena Coronel José Dias – um dos quatro municípios que compõem a área do Parque Nacional Serra da Capivara. Após cometer o assassinato, Paulo de Jesus Souza foi visto em um dos bares da cidade fazendo ameaças à pesquisadora Niède Guidon, hoje com 84 anos, e ao chefe do parque naquele período, o biólogo Isaac Simão Neto. Preso algumas semanas depois do crime, o caçador terminou condenado, mas logo foi solto para recorrer em liberdade.

Dois anos após a morte de Ivani, mais uma tragédia. O ano de 2014 se aproximava do fim quando a competição de ciclismo Bike Race Across foi realizada no parque nacional. A ideia era testar os limites dos competidores em uma das áreas mais selvagens e quentes do Nordeste. O resultado foi dramático. Por falta de planejamento um dos trechos da prova estava isolado, sem acesso para resgate ou equipes de apoio. Com a temperatura elevada, vários atletas começaram a passar mal. A ciclista maranhense Dayane Rita, de 20 anos, morreu após ser encontrada com dificuldade de respiração e inconsciente; ela havia ficado muito tempo na Caatinga do interior do parque esperando por socorro.

 

Serra da Capivara - João Leite

Serra da Capivara - João Leite


Ricardo Soavinski (ao centro), presidente do ICMBio, havia garantido aos guardas do Parque Nacional Serra da Capivara que não seriam realizadas mudanças nos contratos de trabalho. Pouco depois, no entanto, como informa o guarda-parque João Leite (à dir.), houve demissões, e maioria dos seguranças teve seus coletes à prova de balas e porte de armas retirados pela empresa terceirizada Thor, de São Paulo

 

Serra da Capivara - Sarney Filho

Serra da Capivara - Sarney Filho


As mesmas promessas haviam sido reiteradas pelo ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, que aparece à esquerda de João Leite em imagem de 2016

Conteúdo reproduzido da Revista Rolling Stone, disponível no endereço eletrônico  http://rollingstone.uol.com.br/noticia/assassinato-serra-capivara-orgaos-haviam-sido-avisados/#imagem0

 

 


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