22/04/2022 às 19h05min - Atualizada em 22/04/2022 às 19h05min

Um século que separa as investidas de José Honório Granja

Por Janio Rocha Modesto

Portal Corrente
Sr. José Honório Granja (esq.) e Cel. Zé Nogueira (dir.) (Fotos: Janio Rocha Modesto)
O advogado, pecuarista e historiador Janio Rocha Modesto volta a escrever a sua coluna no Portal Corrente, desta vez para registrar um momento histórico importante do Extremo-Sul do Piauí: o conflito armado entre Honório Granja e a família Nogueira, de Corrente e Parnaguá.

O assunto desperta paixões, opiniões adversas e debates acirrados, reforçado pelo ponto de vista dos familiares das grandes famílias envolvidas. 

Com um trabalho minucioso de pesquisa, tendo como base as obras de Jesualdo Cavalcanti Barros e de 
Cândido Carvalho Guerra, além do depoimento de testemunhas oculares com quem conversou ao longo de sua vida, Janio trás ao público um relato sucinto, mas nem por isso menos emocionante, de uma região que quem hoje lá vive jamais imaginaria que tamanha desavença culminou na morte de mais de 400 pessoa, tendo como pano de fundo o cenário único do semiárido do Extremo-Sul do Piauí.

Acompanhe:


UM SÉCULO QUE SEPARA AS INVESTIDAS DE JOSÉ HONÓRIO GRANJA


No quinquênio que vai de 1922 a 1926, o Sul do estado do Piauí foi marcado por intensas batalhas, tendo de um lado José Honório Granja e seus homens e do outro a resistência da família Nogueira, de Corrente e Parnaguá, também com seu mini exército sob o comando de Dr. Raimundo Lustosa Nogueira e do Cel. José Francisco Nogueira Paranaguá (Cel. Zé Nogueira).

Relatos dão conta que José Honório, natural do estado de Pernambuco, estabeleceu-se em Parnaguá entrando no Piauí pela localidade Morro Cabeça no Tempo, hoje município, com o intuito de extrair látex de maniçoba, planta da família das seringueiras, abundante no Sul do Piauí, com enorme potencial extrativista nas terras da região, principalmente na área geográfica de Parnaguá.

Com o passar dos anos, em função da abundância da planta, a facilidade de produção, dado ao custo baixo de mão de obra, Zé Honório começa a fazer e acumular patrimônio, e em pouco tempo já era tido como um dos maiores nomes da sociedade, passando a ter influência na política local, dando início a certa repulsa das representativas lideranças políticas do município.  

Dr. Raimundo Lustosa Nogueira, então juiz de direito da comarca  de Corrente, formado em 1887 em Recife - PE com residência fixa em Parnaguá, tanto que assinava suas decisões como Juíz de Direito da Comarca de Corrente, residente em Parnaguá, percebendo o avanço da influência de Zé Honório nos destinos políticos locais começa a oferecer oposição, na tentativa de restringir os avanços do oponente. Posteriormente Dr. Raimundo foi transferido para a Comarca de Picos – PI onde se aposentou.

Anos foram passando e a cada dia Zé Honório ia avançando e aumentando sua influência, já sendo convidado de honra para acontecimentos sociais de relevância da cidade, apadrinhando crianças nos batizados, noivos em seus casamentos, recepções em festas e eventos etc.

Já consolidado praticamente como cidadão parnaguaense, casa-se com D. Helena Lustosa, nada menos que neta do Barão de Parahim (assim era grafado), recebendo em dote as Fazendas Sambaíba e Pedrinhas, acalhando exatamente em suas intenções, quais sejam, patrimônio, influência política e raízes familiares de representações consolidadas na região. Desse casamento vieram os filhos; Osvaldo, Salomão, Mário Granja, José Honório Filho e a única filha da prole, Carmem Granja.

Dado ao avanço de poder de Zé Honório na vida pacata de Parnaguá, aumenta também, na mesma proporção, a ira da família Nogueira, até então detentora exclusiva dos destinos políticos local, tendo em Dr. Raimundo Lustosa seu maior rival, que com o suporte recebido do seu sobrinho Cândido Lustosa Pereira de Araújo (Candinho Araújo), e já não tendo mais como deter o avanço do forasteiro, sai da diplomacia para a luta armada.  

 

Intensos combates foram travados com baixas de ambos os lados, estima-se que em torno de 400 vidas foram ceifados nos sangrentos enfrentamentos. Porém, Zé Honório, contando com o apoio logístico do Cel. Franklin Albuquerque, residente em Pilão Arcado-BA, que lhes supria em homens e armas, jamais deu sinais de rendição, aumentando a cada dia que se passava a crueldade nos entreveros e mais vidas iam sendo dizimadas. 

Considerando-se homem de fortuna e pertencendo a uma família de respeito e influente, dado ao casamento com a neta do barão, intencionava  trazer para si todo o poder político e o comando dos destinos da região, pretendendo, dessa forma, reduzir a influência da família Nogueira a níveis desprezíveis, começa a perseguir quem pertencesse ao clã Nogueira, não importando  quem, bastava ter o Nogueira em seu sobrenome para ser alvo de suas investidas.

Com a intensificação do conflito, entra em cena o Coronel José Francisco Nogueira Paranaguá (Cel. Zé Nogueira), que se juntando ao grupo de Dr. Raimundo, preparam, treinam e armam um pequeno exército de camponeses, recrutados em Corrente e Parnaguá, exatamente para resistir a Zé Honório, eis que sua intenção era dominar Parnaguá e em ato contínuo avançar sobre Corrente, exatamente onde concentrava a maior população Nogueira e que já contava com influência política consolidada.

Nesse contexto, o Cel. Zé Nogueira, precisando de homens com estratégia de combates e destemor em enfretamentos, manda vir de Pilão Arcado-BA o Sr. João Antonio Pereira do Lago (João do Lago) como ficou conhecido, aumentando assim seu poder de fogo para oferecer resistência as possíveis investidas do rival em terras correntinas.

 
Pouco demorou em Zé Honório, na expectativa de lograr êxito em suas pretensões, tentar tomar Corrente de assalto, experimentando sua primeira tentativa pelo lado leste da sede do município, onde fincou barricada na Fazenda Milagres, hoje pertencente ao espólio do Dr. Josué José Nogueira, de onde partia para os ataques e servia de QG ao seu miniexército, ainda sendo possível ver, nos dias atuais, marcas de projéteis em portas e janelas da casa sede da fazenda.

Sentido o poder bélico e a resistência encontrada, bate em retirada. Porém, sem abdicar do seu intento, volta-se a Parnaguá e vai rearmar-se em Pilão Arcado, sempre contando com o apoio do seu financista e suporte, Cel. Franklin Albuquerque, que lhe ressupre com mais armas e homens para nova investida em Corrente.

Em repetida tentativa de dominar Corrente, Zé Honório agora prepara novo ataque pelo lado leste da cidade, exatamente na localidade Pedreiras, novamente resistido pelas tropas de Zé Nogueira, agora sob o comando de João do Lago, no sangrento embate que entrou para a história como a famosa Batalha das Pedreiras. Para quem não conhece, fica na rodovia que liga Corrente a Paranaguá, a PI-255, poucos metros após as instalações do posto fiscal, atualmente conhecida como Boqueirão, onde também ainda é possível visualizar marcas de disparos em alguns dos rochedões que emolduram a paisagem do local e que serviam como trincheiras.

 

Após longos e tenebrosos dias de combates intensos, o agressor desiste da investida, bate novamente em retirada, retornando a Parnaguá, porém no caminho de volta, ataca a Fazenda Retiro de Baixo de propriedade das Moças do Retiro, Maria Francisca Nogueira, Josefa Nogueira e Alexandrina Nogueira, esta caçula das três irmãs. Sentindo que Zé Honório atacaria a fazenda, Cândido Araújo antecipa-se, reúne seus homens e ruma para o Retiro exatamente para fazer a proteção das moças e do patrimônio. Aconselhadas por Candinho Araújo, as três refugiam-se na localidade Lagoa da Entrada, em caramanchões improvisados, até o cessar fogo.
 
Findado os combates da Fazenda Retiro de Baixo, relatos dos mais velhos, dão conta que catorze homens da tropa rival ficaram sepultados no pátio, sendo que das forças de resistência, apenas Cândido Araújo foi alvejado na altura das nádegas, indo convalescer do ferimento na Fazenda Buriti dos Meios (relatos) de propriedade de seu amigo Eustácio, avô de João Eustácio, cujo nome é uma homenagem aos seus avôs João Lino e Eustácio.

Com o fim da batalha, João do Lago fixa residência em Corrente, casando-se posteriormente com uma das filhas do Cel. Zé Nogueira, D. Elsa Nogueira Paranaguá, dando origem a prole composta por Penuá, Lenir, José do Lago, Orizon, Antonio Augusto (Gute), Correntino e Ferdinand, este adotado pelo casal Sr. Oberlim Cunha e D. Lenir, sua tia materna, pelo falecimento de sua mãe D. Elsa,  exatamente por complicações do parto.

Finalmente no ano de 1926, após a intervenção do governo do Estado do Piauí e de lideranças políticas, tanto de Parnaguá quanto de Corrente, um acordo de paz é selado, ao preço da entrega de grande quantidade de bois erados (termo usado no passado para designar bois já terminados a campo). Estima-se em 1500 cabeças, como forma de recompensa a Zé Honório, pela garantia dada que a partir daquela data o conflito estaria definitivamente finalizado e a paz reconquistada.

Ainda com os resquícios do passado, que ficou gravado nas mentes, um dos filhos de Zé Honório de nome Mário Granja, fazendo-se passar por andarilho, pede abrigo na pela Fazenda Pérsia, de propriedade do Sr. Rui Lustosa, filho de Dr. Raimundo Lustosa ,que inocentemente o acolhe e lhe dá abrigo, não imaginando que estaria recebendo seu futuro algoz.

Passados alguns dias, após ganhar a confiança do dono da fazenda e do seu vaqueiro, Mario resolve pôr seu plano em prática e sorrateiramente atrai o vaqueiro para um banho de riacho, por lá o assassina a golpes de machado e em seguida chega à casa sede, onde também golpeia o Sr. Rui com a mesma arma que, pela gravidade dos ferimentos, falece instantaneamente.  Segundo relatos que obtive de um dos descendentes diretos de Zé Honório, o ato de Mário foi reprovado pela própria família, principalmente pela mãe que não aceitou a atitude do filho.  

Assim se registra parte da história da saga do Sr. Zé Honório, Dr. Raimundo Lustosa, Sr. Candinho Araújo, Cel. Zé Nogueira e Sr. João do Lago,  narradas na obra “O Barulho que Abalou o Sul do Piauí” do imortal Cândido Carvalho Guerra, bem como na  obra “Memória dos Confins” do também imortal Jesualdo Cavalcanti Barros, além dos relatos que ouvia do meu pai Alexandre Modesto Nogueira, que na adolescência testemunhou ocularmente a contenda da Fazenda Retiro de Baixo.
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