18/03/2018 às 11h49min - Atualizada em 18/03/2018 às 11h49min

Querido diário

Por Gabriela Aguiar

Portal Corrente

              Há quanto tempo não lhe escrevo? Provavelmente desde que era criança. Hoje resolvi voltar a contar coisas decifráveis para um caderninho, o qual espero que ninguém leia. Antes o escondia nos lugares mais difíceis possíveis, debaixo do colchão, no fundo da gaveta ou dentro de um livro bem grande. Afinal, meus maiores medos deveriam ficar bem guardados para que ninguém soubesse o pavor que tinha de ficar sozinha no escuro.

            Não posso esquecer também que discorria para falar das minhas paixões, por pessoas, coisas e algum príncipe inexistente. Pois bem, a cada dia descubro novas coisas das quais gosto e as vezes esqueço algumas que antes amava. O tão sonhado príncipe talvez tenha mudado um pouco. Ele não tem cavalo branco, nem é alheio a sua própria vontade. Foram adicionados a ele uma dosagem uniforme de realidade e uma quantidade de ironias e sorrisos.

            Quanto aos meus sonhos ainda continuam os mesmos, com alguns acréscimos e uma quantidade amena de cortes. Nada além do necessário para que minhas asas possam alcançar voo. Sim, sim, todos aqueles maluquinhos mesmo, a gente cresce, e muda algumas concepções. Conhece um mundo mais vasto do que o castelo. Porém, nossos ideais e ambições continuam os mesmos.

            Não posso me esquecer de dizer que ainda falo sozinha e rio sem motivo algum. Às vezes agora também choro sozinha. Algumas pessoas dizem que é uma tal de TPM, mas eu não definiria bem assim. É complicado usar definições tão exatas para sentimentos, ainda mais quando nem você consegue explicar.

            A minha velha indecisão continua aqui, mas hoje é mais controlada. Tá certo, confesso, até agora não consigo escolher minha cor preferida. Gosto tanto do azul, do rosa, do verde. Mas o vermelho, o preto, o branco, o roxo e o amarelo são igualmente interessantes, não consigo excluí-los assim só por uma questão de ter algo preferido. É só que... Ah, deixa para lá!

            Vamos a outro assunto. Continuo escrevendo aquelas historinhas que só existem na minha cabeça. Dou um formato ao decorrer e ao desfecho de cada uma delas, além de organizar a personalidade de cada pessoa. Hoje, infelizmente, é difícil que eu escreva cartinhas, porque... Não, não há um porquê que me dê contentamento quanto a isso. Não é porque os outros não o fazem que eu devo abandonar meus antigos hábitos. A culpa é minha mesmo. Acho que posso mencionar também que aprendi novas palavras e contextos para transformar em rimas.

            Antes eu lia muitos livrinhos sobre princesas, hoje é mais complicado. Não que eu tenha esquecido a Aurora, a Anastásia, a Bela, a Ariel e tantas outras. Mas conheci novas leituras sobre reinos reais e personagens que não usam sapatilhas de cristal. E percebi que eles são perfeitamente capazes de ter lindas histórias para contar, mesmo que em alguns casos os finais não sejam felizes para sempre. Desculpem-me também Vermelha Rosa e o Rumpelstiltskin, que, aliás, até hoje não consigo pronunciar esse nome direito.

            É interessante, Querido Diário, que se lembrando de tudo e comparando com a atualidade a gente percebe o quanto mudou e quanto de nossa infância ficou marcado. Aquelas tatuagens que ninguém além de você consegue enxergar. A gente ri das coisas engraçadas e sente saudade do tempo que se foi. Não que esse novo seja ruim, mas quando éramos pequenos a vida era mais simples e nossos castelos mais fortes.

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