22/04/2018 às 11h31min - Atualizada em 22/04/2018 às 11h31min

O poeta que não escrevia

Por Gabriela Aguiar

Portal Corrente

            Sorria discretamente. Começava no cantinho da boca até que a alegria se espalhava pelo resto do seu rosto. Era uma mistura de mistério com preservação. Não porque tinha medo de se mostrar, mas porque gostava de ser assim. Ele não gostava de ser o centro das atenções, preferia observar o mundo e entender um pouco de toda aquela loucura. Chegava a ser filosófico, mas não embasado em teorias de Platão ou Aristóteles, tudo que sabia tinha aprendido na vida. E qual escola melhor do que essa?

            Talvez ele não fosse brilhante em decifrar mapas ou entender perfeitamente as pessoas, mas era dotado de uma sensibilidade para tentar compreende-las, mesmo que não fizessem sentindo algum. Não julgava. Conseguia perceber os detalhes que outrora qualquer outra pessoa teria deixado passar. E isso ainda estava atrelado a um bom senso se humor, não se aborrecia tão facilmente. Na verdade, era um tanto quanto difícil deixá-lo irritado com algo.

            Um louco, poderiam dizer. Talvez fosse mesmo. Mas sua idolatria era pelo que acreditava. O fanatismo tinha se transformado em amor, se fosse possível ganharia vida própria e desataria no mundo caminhando e gritando a todos os ventos o seu maior orgulho. Fosse bem aceito pelos outros ou não. Era seu. E isso ninguém nunca tiraria. O tornava completo, o preto e o branco em fitas paralelas.

            Era surpreendente tudo o que estava ligado a ele. Não era uma pessoa comum, entretanto poderia se passar perfeitamente como uma. Poderia cantar qualquer música frívola que estivesse na moda. Mas o que mais chamava atenção é que conseguiria facilmente achar um sentido específico em composições de versos soltos. E mais engraçado ainda é que ele também tinha o dom de entender isso nas pessoas e montar um quebra cabeças. Um poeta que não escrevia, pode-se dizer.

            E tudo isso o deixava um pouco frustrado. Porque as pessoas não viam a beleza do mundo como ele era. Se atentavam mais ao que estava na superfície e para qualquer poeta isso significa a pobreza da alma, do existir. E para ele, com certeza, essa era a maior miséria da humanidade. Não era necessário que todos vissem com clareza os belos horizontes, o importante era só deixar que as pessoas ficassem em primeiro plano. Sem interesses, sem regras, sem maldade. Era só o lugar em que deveriam permanecer espontaneamente.

            No todo era difícil achar pessoas que compartilhassem das suas ideias. Mas ele não se importava. Não ligava pros rótulos. Talvez fosse uma das suas maiores defesas para prosseguir nos seus ideais. Ao acréscimo de um escambo entre um coração gentil e uma mente brilhante. Só precisava achar agora as respostas pra suas perguntas mais irreverentes.

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