27/08/2017 às 10h11min - Atualizada em 27/08/2017 às 10h11min

Carta ao que já fui

Por Gabriela Aguiar

Querido,

 
            Durante muito tempo eu fui trapezista de um circo. Desses de pequeno porte que vagam em várias cidadezinhas para levar alegria e um pouco de diversão por onde passam. Eu adorava estar no picadeiro! Minha parte preferida era quando o público ficava admirado com as minhas piruetas e impressionados com a minha capacidade de dançar bem lá no alto... A vida era uma correria sem tamanho, mas não havia nada mais prazeroso nesse mundo do que ver as pessoas se aglomerando e sorrindo dentro daquela lona colorida, cheia de balões. Circos deveriam ser considerados a tenda das felicidades, por mais ilusórias que sejam, ao menos trazem distrações para quem tanto se preocupa com outras coisas, por menores que possam parecer.
            Alguns dos meus dias não eram muito fáceis também. Entretanto, sempre que vestia minha roupa e prendia o meu cabelo para entrar em ação, o mundo parecia ganhar cores e formas diferentes. Os sorrisos mostravam-se sinceros e todas as vaidades eram caladas por pessoas simples, que estavam ali para assistir ao grande espetáculo.
            Um dia eu resolvi mudar. Por querer fazer algo novo na minha vida. Pela experiência no palco, apesar de muito pouca, resolvi ser atriz. Eu queria que o mundo inteiro me visse nas telas do cinema ou da TV. Saí de um circo pequeno para o estrelato em Hollywood. Era adorável! Cada dia eu podia ser uma coisa diferente, me vestir de uma forma diferente, conhecer pessoas diferentes. Podia até voar, que delícia! Estava quase satisfeita, a não ser porque isso só aparecia do outro lado da tela e me cansei dos bastidores e holofotes. Desisti de ser atriz.
            Consegui um emprego então num aquário, daqueles bem grandes que tinham todos os tipos de animais. Não preciso nem contar que a minha parte preferida era entrar nos tanques e nadar com os peixes. Me sentia uma sereia! E olha, era bem melhor no aquário do que nos filmes de Hollywood. Era mais verdadeiro. Mas não passei muito tempo, apesar de gostar muito, precisava de algo que me instigasse mais.
            Por que não ser detetive?! Observar as pessoas ao longe e traçar todos os seus passos apenas com os meus olhos. Prestar atenção nos seus gestos, palavras e nas suas controvérsias. Sim, de fato, muito interessante poder ler pessoas apenas observando-as. Elas nunca percebiam que o que as entregavam eram o olhar e não o que falavam ou faziam. Provavelmente nunca ouviram aquele ditado que os olhos são as janelas da alma e são mesmo, acredite. Logo me cansei dessa profissão também. Ver o cinismo dos outros me dava náuseas constantes.
            Quis ser cigana. Ler o futuro. Por acreditar que ele estava bem ali, na palma da mão. E talvez estivesse mesmo. Mas a gente muda tanto e o tempo todo que é difícil controlar as coisas dessa maneira. O futuro estava sim ali, aprendi isso nas minhas andanças sem direção certa, mas não seriam minhas linhas ou uma bola de cristal que revelariam tudo. Não dessa forma como se pensa, simplesmente porque somos capazes de mudar.
            Durante algum tempo eu fui muitas coisas. Tantas coisas que não caberiam aqui, nesta carta. E algumas vezes até me esqueci de ser eu. Aprendi muito, confesso. Mas a minha essência não poderia ficar vagando perdida por aí até que eu encontrasse uma coisa que me prendesse por completo. Agora estou trabalhando em ser só minha. E tenho gostado da experiência, você deveria experimentar.
 
            Com carinho,
 
            G.
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